Organograma que mostra nome de Mário ao lado do nome da produtora do filme de Jair Bolsonaro — Foto: Reprodução

Um organograma escrito à mão em um papel, apreendido pela Polícia Civil de SP durante a operação Wi-Fi em São Paulo, mostra o nome "Mário" ao lado das palavras "sócio" e "Go Up", produtora cinematrográfica nos Estados Unidos.
A ação foi realizada para investigar a suspeita de fraude em um contrato da ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) com a Prefeitura de São Paulo. O Instituto é de propriedade da empresária Karina Ferreira da Gama, que também é sócia da Go UP, produtora do filme "Dark Horse" sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Não consta no manuscrito o sobrenome de "Mário". O deputado federal Mário Frias (PL-SP) é produtor-executivo do filme Dark Horse, mas ele nunca foi descrito como sócio da produtora nos EUA. Na última quinta-feira (10), a Polícia Federal cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em operação relacionada ao financiamento do filme. Karina e Mário Frias foram alvos da ação (veja mais abaixo).
O documento que mostra o organograma foi anexado aos autos do inquérito que tramitava em São Paulo e posteriormente foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília. O ministro Flávio Dino retirou o sigilo de documentos remetidos pela Justiça de São Paulo neste domingo (13) e unificou sob sua relatoria inquéritos que apuram um possível esquema de desvios e ocultação de verbas públicas.
O inquérito não informa quem elaborou o organograma, mas é possível observar que o papel traz anotações relacionadas a outros três CNPJs controlados por Karina Gama: o Instituto Conhecer Brasil (ICB), a Go7 e a Academia Nacional de Cultura (ANC).
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O nome de "Mário" também aparece ligado a uma terceirizada da Go Up no Brasil, identificada no material apenas como SCP, segundo o documento.
A empresária Karina Ferreira Gama, dona da Go Up Entertainment LTDA e do Instituto Conhecer Brasil, que recebeu dinheiro do deputado Mário Frias (PL). — Foto: Reprodução/Redes Sociais
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O inquérito da Polícia Civil disse, a princípio, que o organograma foi apreendido no "local 2", que seria um dos endereços alvo de busca e apreensão ligados à empresária Karina da Gama na região da Brasilândia, Zona Norte de SP.
Porém, um dos boletins de ocorrência que consta no inquérito que veio a público diz que o documento foi apreendido e lacrado sob o número 0021865, que está ligado a endereços do empresário André Feldman, da empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda.
Feldman já prestou serviços para o gabinete do deputado federal Mário Frias (PL), tendo recebido R$ 154 mil do gabinete de Frias entre setembro de 2024 e abril de 2026, dinheiro da cota parlamentar.
A própria Karina da Gama prestou serviços de campanha para Frias em 2022, quando ele foi eleito deputado federal pelo estado de São Paulo.
O empresário André Feldman, dono da Complexsys Soluções Integradas Ltda, que emitiu nota e cancelou em favor do instituto de Karina da Gama. — Foto: Reprodução/Redes Sociais
O que dizem os citados
O g1 contatou o empresário André Feldman e ele disse, por meio de seu assessor de imprensa, que "nunca viu o documento citado no inquérito e não reconhece a letra do que está escrito".
A defesa de Karina Ferreira da Gama não respondeu sobre o documento, mas sobre a operação da PF que apreendeu o documento informou que "apresentou uma reclamação constitucional ao STF após a operação da Polícia Federal de quinta-feira (10)".
Segundo o advogado Ricardo Sayeg, a medida não questiona o mérito da investigação e busca garantir o cumprimento de decisões da Presidência do STF e a competência do juiz natural.
A defesa afirma ainda que Karina vinha colaborando espontaneamente com a investigação e entregou à PF, na última sexta-feira, mais de 20 mil páginas de documentos.
Boletim de ocorrências da 'Operação Wi-Fi', da Polícia Civil de SP, aponta locais onde materiais foram apreendidos. — Foto: Reprodução/Polícia Civil/STF
Em vídeo publicado nas redes sociais, Mário Frias classificou como “cortina de fumaça” a operação da Polícia Federal que realizou buscas em sua residência na semana passada.
O parlamentar negou irregularidades, afirmou que vai colaborar com as investigações e entregar todos os documentos necessários e disse acreditar que o caso será arquivado.
O g1 também procurou o deputado Mário Frias (PL-SP) para comentar a apreensão do documento e aguarda retorno.
Suspeita de desvio de verba pública
Karina Gama, produtora do filme 'Dark Horse', e o deputado Mario Frias (PL-SP) são alvos de ação da Polícia Federal, que cumpre mandados de busca nesta quinta-feira (10). — Foto: Reprodução e Câmara dos Deputados
A Polícia Federal suspeita que pelo menos R$ 750 mil de verbas públicas federais de emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) foram trianguladas para financiar a produtora Go Up Entertainment Ltda., responsável pelo filme "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente, sempre afirmou que não foram utilizados recursos públicos no filme. Ele não é investigado neste inquérito.
Segundo o relatório da Polícia Federal, o esquema investigado envolve o repasse total de R$ 2 milhões em emendas parlamentares do deputado federal Mário Frias (PL-SP) ao ICB, que presta diversos serviços.
No primeiro convênio, de R$ 1 milhão, o ICB contratou duas empresas ligadas ao grupo empresarial de Heric Fabiano Dias: a Dinâmica Editora (R$ 400 mil) e o Instituto Super Poder Educacional (R$ 300 mil), repassando-lhes aproximadamente R$ 700 mil sob justificativa de fornecer kits pedagógicos.
Na sequência das transações, a empresa NTT Brasil Ltda., também administrada por Heric Dias, efetuou um repasse único de R$ 750.000,00 para a conta corrente da Go Up Entertainment Ltda.
Conforme ressalta o relatório da investigação, "tais fatos chamam a atenção porque a Go Up Entertainment é a empresa responsável pelo filme Dark Horse, acerca da trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, que tem como produtor executivo o deputado federal Mário Frias".
As filmagens do longa-metragem foram realizadas em São Paulo entre 20 de outubro e 7 de dezembro de 2025, intervalo no qual a Go Up registrou movimentação financeira atípica de R$ 19.033.071,00.
"Chama a atenção a coincidência temporal das gravações com o período da referida comunicação, bem como a natureza das despesas, que envolvem hotel de alto padrão e refeições, além de despesas com produtoras", diz a PF no relatório.
Relatório da PF sobre suspeita de desvio de verbas parlamentares — Foto: Reprodução
No mesmo intervalo de menos de 60 dias, o próprio deputado Mário Frias efetuou transferências pessoais que somaram R$ 645.400,00 para a Go Up Entertainment.
Para a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU), há indícios de que os contratos do ICB com as empresas do grupo de Heric Dias foram simulados mediante pesquisas de preços fraudadas para desviar verbas públicas e, posteriormente, reinserir R$ 750 mil na produtora para custear a obra audiovisual.
🎥 O filme "Dark Horse" (termo em inglês para "azarão") passou a ser alvo de investigações após reportagens revelarem que a produção teria sido financiada por Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. Ele está preso em Brasília.
Operação 'Make Up'
O ator norte-americano Jim Caviezel interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro no filme 'Dark Horse' — Foto: Reprodução
O ministro Flávio Dino autorizou o cumprimento de mandados de busca e apreensão no âmbito da Operação Make Up, realizada conjuntamente pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU).
A ação cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal.
Dino é o responsável por autorizar esse tipo de ação porque ele é o relator de processos no Supremo que investigam irregularidades no repasse desses recursos públicos, enviados por parlamentares para suas bases eleitorais.
O ministro também determinou a aplicação de medidas cautelares contra Mario Frias, proibindo o parlamentar de deixar o país e de manter qualquer contato com os demais investigados no inquérito que apura desvios de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares.
Polícia Federal mira Mario Frias e produtora de Dark Horse

