🦜 Ele quase sumiu do planeta
Há trinta anos, restavam apenas 51 kākāpōs vivos no mundo. Hoje esse número mais que quadruplicou, e a temporada de reprodução em curso pode reescrever a história da espécie. ⬇️
Poucas histórias de conservação animal são tão dramáticas quanto a do kākāpō. Símbolo da fauna neozelandesa, o papagaio mais raro do mundo viveu à beira da extinção com apenas 51 indivíduos nos anos 1990. Três décadas depois, a população saltou para 236 aves, um marco que antecede o que pode se tornar a maior temporada de reprodução já registrada para a espécie.
Por que o kākāpō quase desapareceu da Nova Zelândia?
O kākāpō quase desapareceu por causa de predadores introduzidos por colonizadores humanos. Gatos, arminhos e ratos chegaram à Nova Zelândia sem que a ave, incapaz de voar, tivesse qualquer defesa natural contra eles.
A combinação desses fatores levou a um colapso populacional silencioso ao longo de séculos. Veja os principais responsáveis pelo quase desaparecimento do papagaio:
- Predadores introduzidos: gatos, arminhos e ratos passaram a caçar ovos, filhotes e adultos.
- Caça histórica: penas e carne da ave eram usadas por colonizadores e povos indígenas.
- Perda de habitat: o avanço da agricultura reduziu as florestas nativas onde o papagaio vivia.
Papagaio mais raro do mundo escapa da extinção na Nova Zelândia - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Como o programa de recuperação salvou o kākāpō?
Em 1995, o Departamento de Conservação da Nova Zelândia (DOC) criou um programa dedicado exclusivamente à espécie. Em parceria com o povo indígena Ngāi Tahu, a equipe transferiu os poucos sobreviventes para ilhas livres de predadores no sul do país.
Cada ave passou a usar um pequeno transmissor de rádio nas costas. O equipamento permite monitorar localização, saúde e comportamento reprodutivo durante todo o ano.
Desde então, a população cresceu de forma lenta, mas constante, ao longo de treze temporadas reprodutivas. Os números registrados em cada marco mostram a magnitude dessa recuperação:
Da beira da extinção ao recorde
🕊️
1995: 51 aves
Início do programa de recuperação, com apenas 31 machos e 20 fêmeas.
🐣
2019: 73 filhotes
Maior temporada de reprodução registrada até então.
📈
2026: 236 aves
População total antes do início da nova temporada reprodutiva.
Fonte: Department of Conservation (DOC), Nova Zelândia.
O que explica a maior temporada de reprodução já registrada?
O kākāpō só se reproduz quando a árvore rimu nativa produz uma quantidade excepcional de frutos. Esse fenômeno, chamado de masting, ocorre apenas a cada dois ou quatro anos e funciona como o gatilho biológico da espécie.
Em 2026, a fartura de frutos de rimu coincidiu com o maior número de fêmeas em idade reprodutiva já registrado, resultado de anos de parceria entre o DOC e o Ngāi Tahu. O acasalamento se concentrou nas três ilhas de proteção, Whenua Hou, Pukenui e Te Kākahu-o-Tamatea.
O papagaio também chama atenção por outras características raras. Ele é a espécie de papagaio mais pesada do mundo, não voa e é ativo apenas à noite.
Durante o acasalamento, os machos cavam pequenas crateras no solo e emitem um som grave, parecido com um tambor, que pode ser ouvido a quilômetros de distância. Esse comportamento é chamado de lek e serve para atrair as fêmeas até os pontos de encontro nas ilhas.
Quais desafios ainda ameaçam a sobrevivência da espécie?
A baixa diversidade genética continua sendo o maior obstáculo para o kākāpō. Como quase todos os indivíduos descendem de um grupo pequeno de sobreviventes, problemas de fertilidade e má formação em ovos são frequentes. Muitos ovos sequer chegam a eclodir, mesmo com acompanhamento veterinário constante.
Mesmo com o crescimento recente, a espécie segue dependente de manejo humano constante. Conheça os principais riscos que a equipe do comunicado oficial sobre a temporada de reprodução 2026 aponta como prioridade:
- Baixa diversidade genética entre os indivíduos remanescentes.
- Altas taxas de infertilidade nos ovos postos a cada temporada.
- Dependência contínua de manejo humano intensivo para reprodução e sobrevivência.
O kākāpō vai continuar crescendo nos próximos anos?
As equipes de conservação já projetam a próxima temporada reprodutiva para 2028, na esperança de um intervalo ainda mais curto entre os ciclos. Cada filhote nascido representa um passo a mais para tirar o papagaio do risco extremo de extinção. Da próxima vez que você pensar em aves raras, lembre desse papagaio verde que ainda está aprendendo a confiar de novo no mundo.


